Aos que crêem que gosto não se discute, recomendo não ler esse post. Na minha opinião, gosto se discute sim (ou, como diz o ditado, gosto não se discute, lamenta-se, profundamente)! Afinal, você tem que definir critérios para justificar se algo é bom ou não. A resposta de “gosto porque esse é meu gosto” apenas esconde a incapacidade de explicitação de seus próprios critérios. É isso que faz da crítica (de arte, de cinema, gastronômica, etc.) algo tão difícil.
Dito isso, ressalto que não tenho qualificação para ser uma boa crítica gastronômica, pois não tenho traquejo na sutileza dos critérios. Mas, modéstia à parte, sei dizer se um prato é medíocre, se é apenas correto, ou se é estupendo!
Sem mais rodeios, vamos ao que interessa. O melhor restaurante de Buenos Aires, sem sombra de dúvida, é um pequeno bistrô, de cozinha de autor, chamado Restó (apelido portenho para restaurante).
Como não tenho a cara de pau dos blogueiros gastronômicos, que sacam a câmera, tiram foto da entrada, do prato principal, da sobremesa, das pernas da garçonete, etc., sinto, mas a foto foi tirada de um guia de restaurantes de Buenos Aires.
Vejam que é um restaurante pequeno. Além das mesas que vocês vêem na foto, talvez haja, no máximo, mais umas duas. Ele só aceita dinheiro. Não abre aos fins de semana. À noite, só abre na quinta e na sexta (de segunda à sexta, abre para o almoço), mas, talvez por isso mesmo, a comida é fantástica.
Seu cardápio é enxuto, e muda ao sabor das experimentações do chefe, e, claro, da disponibilidade de ingredientes. São algumas opções de entrada, três ou quatro opções de prato principal, e algumas sobremesas. Ele fica escondidinho, dentro da Sociedade Central de Arquitetos de Buenos Aires (Rua Montevideo 938 . Tel: 4816-6711). Não preciso dizer que é altamente recomendável fazer reserva.
Conhecemos o Restó na primeira vez que fomos a Buenos Aires. Como gostamos muito de boa comida (e, tenho que admitir, São Paulo é imbatível nesse quesito), a primeira coisa que fizemos foi comprar um guia de restaurantes, numa livraria. Era um guia razoável, no velho esquema estrelas de qualidade e cifrões de gastos. Fomos experimentando cada uma das sugestões. Estávamos já meio desanimados, pois não havíamos comido nada muito excepcional. Eram restaurantes medianos. Nesse ponto, aliás, condizentes com a avaliação do guia.
Resolvemos então ir para os restaurantes recheados de estrelas (e, claro, recheados de cifrões!). Mas começamos por um que não tinha tantos cifrões, comparado aos demais estrelados, é claro. E foi então uma das experiências gastronômicas mais marcantes que eu já tive, comparável somente à primeira vez que fui no Aizomé, em São Paulo, um pequeno restaurante japonês onde o menu-degustação é uma arte que acompanha cerâmicas adequadas a cada prato. Mas essa é uma história para outro post.
Como não tenho fotos, não faz muito sentido eu ficar descrevendo os pratos que comemos. Mas fica aqui a dica. Aliás, eles também têm uma ótima carta de vinhos, com preços bacanas. O Quimera, da Achaval Ferrer, por exemplo, saía por 150 pesos. O mesmo preço da adega!
Contudo, não posso atestar que haja regularidade nas experimentações do chefe (infelizmente, problema semelhante recai sore o Aizomé). Nessa nossa última viagem, voltamos ao Restó, e apesar da boa comida, ela não estava excepcional. Não senti nada comparável àquela primeira experiência sensorial de combinações perfeitas de aromas e sabores. À exceção da entrada: pequenos filés de tricha marinada (não sei se é assim que se escreve, mas a tal tricha é um peixe), acompanhados de ótimo vinho branco. Como a taça fazia parte do prato, não sei que vinho era. E estava tão concentrada com aquela combinação, que não me preocupei em perguntar.
Por fim, uma convicção: os portenhos não têm tradição em sobremesas!








